segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Momentos Culturais do Irmão  RIPOLL
Boa leitura.


O CAIPIRA E O SERTANEJO



Grão Mestre Barbosa Nunes do Estado de Goiás publicado no Jornal Diário da Manhã dia 10 de novembro de 2012.




Nascendo na zona rural do município de Itauçu, em Goiás, filho e neto de casais paulistas da zona de Ituverava e Miguelópolis, carrego comigo a influência deste meio, que formou a minha personalidade e me encaminhou para a vida, fortalecida pela minha goianidade. Desejo abordar neste artigo, com pesquisas junto à Revista da UFG – “Tema Brasil Rural” e Universidade Federal de São João Del Rei, trabalho de Enói Miranda Barbosa Mendes, o significado não só do vocábulo, mas do sentimento do “caipira” e do “sertanejo”.
“Caipira” é uma denominação, tipicamente, paulista, nascida da miscigenação do branco com o índio. A partir da língua tupi, tem várias explicações etimológicas.“ka’apir” ou “kaa-pira”, que significa “cortador de mato”, “ka’a pora”, “habitante do mato”, a partir da junção “caa” (mato) e “pora” (gente), significando o que vive afastado.
As referências iniciais são relativas a aldeias na Vila de São Paulo, desdobrando-se em núcleos dessa cultura no Alto Paraíba, Baixa Mogiana, Piracicaba, Campinas, Sorocaba e outros, com influência da cultura do café e transmissão fortemente acolhida em Minas Gerais e Goiás, através das incursões dos bandeirantes paulistas.
“Sertanejo” é vocábulo que se refere ao habitante do sertão, região agreste, distante das povoações ou terras cultivadas. Terreno coberto de mato, pouco povoado, no interior do país, local onde perduram tradições e costumes antigos.
”Caipira” e “sertanejo”, tem quase o mesmo significado, ambos homens rurais, possuindo semelhanças e algumas diferenças. O sertanejo é tido como um homem forte, pois o sertão o molda para uma luta constante, diária, precisando resistir às dificuldades.
O caipira é mais indolente, sintetizado na figura do “Jeca Tatu”, de Monteiro Lobato, que lhe deu sentido pejorativo. Atualmente, a designação cresceu de conceito, sendo até “chique”, especialmente no interior paulista, afirmar-se “caipira” como demonstração de bairrismo paulista e orgulho.
“Riobaldo”, personagem de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, lembra, no que matuta, o pensar do caipira. Esse personagem conta sua história a um viajante, e levanta, a todo momento na narrativa, questões sobre o homem, o mundo e a vida, narrando que o personagem ruralista carrega um baú de guardados preciosos, como se estivesse ali a sua alma e a de muitos, porque, à medida que o homem rural escuta e vivência os casos, ele reconta e observa lições, manhas, trejeitos, acrescentando conhecimentos a quem ouve e a quem lê.
O escritor goiano Bernardo Elis criou o personagem “Chico da Gama”, no conto “Noite de São Lourenço”, descrevendo o homem rural caipira: “Não, até que o cantador não é muito velho não, é homem assim de meia idade, mas  conservado, pele alva, usa uma barbona russa que quase mistura com as toeiras da viola, é homem muito sossegado e muito acomodado”. Traz histórias na capanga e tira da sua viola canções que muitos desejam ouvir. “Chico Gama” conserva na sua recordação toadas que gente velha de muito longe vem para ouvir”.
“Sertanejo” e “caipira” são hoje e significam a mesma coisa. Homem rural, sujeito sabido, embora com ar sossegado, paciente, vivido, outras vezes forte, lutador, que ora pode entoar os seus casos no embalo do fumo em seus dedos, com calma, respeito e mansidão. Também, como cultura na cidade, conduz carros de luxo, frequenta as rodas sociais, veste-se bem, maneja as máquinas sofisticadas no crescimento do agronegócio. Com origem sertaneja ou caipira, embala o progresso do país.
Música sertaneja ou caipira é gênero musical do Brasil produzido a partir de 1910, por compositores rurais e urbanos, cujo som da viola é predominante. No livro “Conversas ao pé do Fogo”, Cornélio Pires conta que conheceu a música caipira, no seu original, nas fazendas do interior do estado de São Paulo e em outro livro de sua autoria, “Sambas e Cateretês”, recolheu essas letras cantadas em solo interiorano paulista.
Em 1929, em sua primeira era, surgiu a música sertaneja como se conhece hoje, a partir de gravações do próprio jornalista e escritor Cornélio Pires, com fragmentos de cantos rurais do interior paulista, Triângulo Mineiro, sudeste goiano e matogrossense.
A segunda era da música sertaneja, teve início por volta de 1945, com letras mais amorosas, destacando-se desta época duos como Cascatinha e Inhana, Irmãs Galvão, Palmeira e Biá, Luizinho Limeira e Zezinha e o poeta, autor de mais de duas mil letras, cantor José Fortuna, também a dupla Milionário e José Rico, Pena Branca e Xavantinho, Tião Carreiro e Pardinho e outros.
Na terceira era, foi introduzida a guitarra elétrica por Léo Canhoto e Robertinho, marcando a fase moderna da música sertaneja, com Sérgio Reis, Renato Teixeira e seguindo-se à massificação comercial com Trio Parada Dura, Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo, Zezé de Camargo e Luciano, Christyan e Ralph, Nalva Aguiar, Roberta Miranda e outros, com sucessos nas paradas, “Fio de cabelo”, “Pense em mim”, “Entre tapas e beijos”. Atualmente, a era do “sertanejo universitário”, tornando alguns instrumentos mais eletrônicos e o ritmo acelerado, não apresentando grandes diferenças, porém, com rótulo comercial.
Concluo este artigo registrando a pesquisa do jornal “Folha de São Paulo”, que apontou as 10 músicas sertanejas ou caipiras mais clássicas de todos os tempos, chegando-se à seguinte classificação, a partir da décima classificada:

“Moda da Pinga”, gravada por Inezita Barroso em 1955, de Laureano; 

“Pagode em Brasília”, gravada por Tião Carreiro e Pardinho, em 1960, de Teddy Vieira e Lourival dos Santos; 

“Rio de Lágrimas” gravada por Inezita Barroso em 1972, de Lourival dos Santos, Tião Carreiro e Piraci; 

“Luar do Sertão”, por Pena Branca e Xavantinho, de Catulo da Paixão Cearense; 

“Mula Preta”, gravada em 1945 por Raul Torres e Florêncio, de Nestor da Viola; 

“Cabocla Tereza”, também por Raul Torres e Florêncio, de 1936, de Raul Torres e João Pacífico; 

“Chalana”, por Almir Sater, gravada em 1992, de Arlindo Pinto e Mario Zan; 

as três primeiras foram 

“Chico Mineiro”, por Tião Carreiro e Pardinho, de Tonico e Francisco Ribeiro; 

“Menino da Porteira”, por Sérgio Reis, de Teddy Vieira e Luizinho

e em primeiro lugar, 

"Tristeza do Jeca" gravada em 1926, pelo cantor Patrício Teixeira, tornando-se sucesso e um dos clássicos da música sertaneja brasileira nas vozes de Tonico e Tinoco, composição de Angelino de Oliveira.
Fiquei muito saudoso ouvindo todas estas belas e puras composições sertanejas ou caipiras.

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